s/t, 2012, aguarela s/papel, 25x28cm

s/t, 2012, aguarela s/papel, 25x28cm,

Alexandre Conefrey

Biografia

Alexandre Conefrey: director's cut

as cores chegam à difícil fronteira em que perdem o nome. e, no papel
colorido que mergulha em água, o artista deve adivinhar o que vai
acontecer, conduzir os factos e aceitar ou rejeitar a realidade final
de cada pequena superfície. assim, mostra o total domínio da sua
vontade de autor sobre a imagem final. essa autoridade exerce-se como
modalidade de jogo e poder: os trabalhos de Conefrey são obras que se
oferecem e que nos roubam, que obrigam o desejo mas não facilitam a
posse.

por estas razões, as obras dispensam ser entendidas segundo qualquer
continuidade e lógica sequencial: não são séries, não são linhas de cor
seccionadas nem ambicionam constituir-se em listas de cores, construir
um pantone universal. resultam de um intenso trabalho uni direccionado
mas existem uma a uma, como as pedras que colhemos ao vaguear junto
a um rio.
podemos dispô-las em pequenos montes variados na mesa de trabalho
ou espalhá-las no chão do atelier para melhor as ver, organizar ou não
grupos de afinidades cromáticas: formalmente idênticas entre si possuem
mas não propõem uma organização tonal. e melhor as veremos se
delas excluirmos toda a ideia de dimensão: que o vertical seja também
horizontal e o horizontal seja ainda vertical – como se cada unidade
pudesse reduzir-se a um simples ponto (de alta densidade e energia) sem
dimensão; e como se o seu conjunto nunca prefigurasse uma linha ou
uma colecção de segmentos de recta mas sim uma dispersa constelação
de pontos.
de modo menos radical, mas recusando ainda a imagem da linha,
diremos que cada obra pode funcionar como uma página de cor
aleatoriamente arrancada a um caderno – assim, teremos que as
imaginar no espaço e no tempo recusando a tentação cromática da
decoração e a tentação visual do travelling; optando antes pela violência
descontextualizadora do cut up.

o desenho existe sempre sob a pintura (ou dentro dela). o resultado
dessa oclusão ou fusão imita a tensão com que a pintura existe sobre
a palavra. a pintura nega a linha e a grelha quando as esconde mas
também quando as expõe; e a pintura devora as palavras escritas sobre
ela como devora o espaço em seu redor. mas o desenho sobrevive no
gesto ritmado e ritualizado do fazer que é como uma fala monocórdica e
sagrada ou uma dança desenfreada. o desenho é a música inaudível que
sobrevive ao massacre da cor, da matéria e da palavra.

os exercícios de Conefrey roubam a cor à pintura, tornam-se repetidos
e poderosos exercícios físicos (que acabaram por nos fazer chegar

à história, vasta e recorrente, do monochrome). mas preparam-nos,
não para qualquer dimensão metafísica ou transcendental e sim para
um processo de subtis mas rápidas metamorfoses perceptivas onde
o trabalho da luz sobreleva a presença da matéria e nem a palavra
descritiva nem a imagem evocativa têm lugar.
a abstracção corta caminho entre o que podemos dizer do que vemos,
o que sabemos do mundo e o que dele (nos) resta. a abstracção é um
golpe entre o que se vê e o que se sabe – a abstracção acaba por nos
libertar da necessidade de falarmos directamente quer de pintura quer de
desenho para apenas falarmos de nós.

joão pinharanda
lisboa, 25 agosto2012