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Exposição a decorrer até 2015-7-31

Edgar Massul

dans l'eau dormante, on se repose

Provas de Contacto

Na fotografia tradicional, dita analógica, a prova de contacto resulta de encontro físico de um negativo com o papel sensível que será o suporte de uma imagem. Nestas obras de Edgar Massul todo o papel é sensível para um especial corpo-a-corpo com essa matéria de paisagem que é a lama, esse resultado do encontro da Terra com a Água, neste caso na margem Sul do estuário do Tejo num projecto que se iniciou na Ria Formosa, está no Tejo e vai partir em direcção ao Norte rumo ao Mondego e, finalmente, ao Douro.

Trata-se não de um confronto mas de um encontro amoroso entre os corpos onde o registo de um acto faz, ele próprio, parte desse mesmo acto onde o atelier do artista é transportado para o terreno, enquanto nesse mesmo terreno também se recolhe alguma matéria que será posteriormente aposta sobre o papel num aluvião transformado em folha de livro que, por designação expressa, o artista intitula como uma história de Amor
(Tejo, a love story book, 2015).

Entre pintura e desenho sempre um artista, qualquer artista, viu e deu a ver das mais diferentes maneiras; esta implica um pequeno gesto de apropriação das matérias onde não existe ainda mimetismo, mas sim uma espécie de veneração ou devoção por essas mesmas matérias, capazes de trazerem consigo a sua própria exaltação, num fazer sem fazer pois pintura e desenho acontecem por si próprios, vivendo livremente sobre os seus suportes; obedecendo ao tempo, à fluidez e viscosidade que a água transmite, ao Ar, e ao Fogo oculto nele, que tudo vão secando e transformando nestes objectos feitos de pó e ao pó regressando, com espera, medida e compasso. E assim o tempo vai modelando esta obra e, cada vez menos escondido, surge um outro tipo de mimetismo, quando o craquelé da lama imita as crostas e o desgaste da pintura a óleo, e os sulcos e caminhos da água inventam uma paisagem de estuário, tão formalmente próxima daquela mesma donde saíram as lamas destes desenhos e destas pinturas.

Aqui e além uma alga finíssima funciona, tal e qual uma linha, e o desenho abandona temporariamente a mancha dominante sem que a mão do artista tenha muito a ver com isso; aliás, aquele trabalho da mão que ligamos ao desenho é, aqui, o menor possível ou nem chega a existir; a mão de Edgar Massul trabalha por certo como agente recolectora dos materiais que reúne. O olhar que detecta e escolhe, a mão que captura e, finalmente, o acaso que se provoca, são três agentes fundamentais destes registos que por si próprios parecem crescer e viver a sua incerta vida material, já que o processo da decadência é simultâneo do seu acontecer entre acaso e escolha.

As matérias que o Tejo carregou são agora provisórias prisioneiras do papel, como um tempo suspenso ou um instante prolongado, o contacto fez-se e deixou estas marcas, estes quase mapas, transformadas noutras tantas máquinas de sonhos perante as quais, como se estivéssemos diante de um espelho, sonhamos a matéria que, entretanto, nos vai sonhando a nós.


José Luis Porfírio

Arco do Cego, 20 de Maio de 2015