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Exposição a decorrer até 2013-10-24

Evelyn Kahn

Impressões

O olhar deixa-se atrair e, obediente, a câmara capta o desejo. Mas depois, quando aquele momento se corporiza aos poucos na folha de papel, autónomo e fora do tempo certo, vai-se revelando, no frisson sucessivo das transparências, a contida dimensão insuspeitada. A apetência passageira, inadvertida e brusca, transforma-se na incongruente fixação do efémero, do irrepetível, do tempo fugidio assim eternizado pela moldura sóbria que o suporta para sempre como uma janela rasgada de supetão na imensidade de uma parede, cega e branca.
Estas fotografias da Evelyn, parte coerente de um universo bastante mais variado, resultam dessa ânsia de agarrar a dimensão efémera que a passagem do olhar vislumbra nos detalhes impressivos surgidos sem pré-aviso em qualquer canto, em qualquer superfície. Seja uma parede decadente, um automóvel abandonado ou um barco envelhecido amarrado a um cais sem destino. Amanhã, provavelmente, já nada será igual. Ou porque a luz se toldou, ou porque a parede foi pintada, ou porque a viatura se sumiu no ferro-velho, ou porque o barco se lançou às ondas, ou, pura e simplesmente, porque alguém acrescentou um risco, uma mossa, uma pincelada de cor ditada por um instinto passageiro. Mas, entretanto, a transmutação processada pela objectiva, a fixação sensorial da vivência daquele momento único ganha a dimensão de todas as figurações, a ânsia imediata de identificação, a sugestão abstracta de matérias, texturas, manchas, de razões por adivinhar ou sentidos por intuir; e, sobretudo, revela a sensibilidade furtiva que teima desencantar harmonias num caos residual que a desafia ao virar da esquina. Isto é, cada uma destas fotografias, assim autónoma e coerente porque aparentemente desligada de tempo e lugar, propõe a adesão afectiva a um universo onírico onde vagueiem, até à exaustão, todos os desafios possíveis de incendiar a imaginação de cada um.

José Sarmento de Matos