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Exposição a decorrer até 2013-2-06

Graça Pereira Coutinho

Auto-retratos

O auto-retrato é, basicamente, uma representação do artista; mas nem sempre é um retrato verista de si mesmo. Incluindo essa necessidade de expor-se a ele próprio, pode ser elaborado com o intuito de conter diversos significados que são utilizados pelo artista para “corromper” a sua imagem. A transfiguração assume, neste caso, uma paradoxal situação de inverosimilhança face ao sujeito, uma delicada situação em que se impõe como um manipulador, um momento em que utiliza um mecanismo de influência capaz de enganar o espectador.
A ausência da sua imagem, por outro lado, é uma intriga sem sujeito que lhe permite conjugar outras linguagens numa narrativa sem personagem aparente. No entanto, a deriva do discurso indireto permite-lhe encarar a (sua) estória como um acontecimento cuja compreensão e sentido só são percetíveis pelo acumular de citações fragmentadas que incluem noções de valor, crenças e interesses. Outras componentes, tais como sonhos, visões e evocações aos quais se juntam atividades que prenunciam o futuro ou que evocam o passado, são adotados por Graça Pereira Coutinho como instrumentos e técnicas de trabalho que incluem competência, conhecimento, atitude e, sobretudo, características muito pessoais.
Mais do que a medida de todas as coisas, G.P.C. incorpora-se no seu trabalho através de materiais naturais que refletem o seu apego à natureza e a colocam como um “ente” que a habita. Este personagem que transporta consigo a responsabilidade do mundo é um “vivente” que se (auto)constrói sempre que vagueia numa paisagem que vai construindo à medida que a utiliza. «I am the landscape that I see, I am the creation, I am the illusion», escreve numa das suas obras. Ao percorrer estes itinerários, estes percursos e estes trajetos, concebe e desenha linhas imaginárias capazes de definirem uma cartografia de si mesma. Sempre diferentes, estas linhas cruzam-se de modo aleatório e constituem-se como constelações pessoais com as quais identifica o seu eu e que nos permite, também, participar nesse universo criativo através das nossas próprias construções mentais. Por outro lado, ao transitar de um território para outro, ela constrói pontes que lhe facilitam a união de paisagens e de lugares: «I am between places», comenta. Caminhando e passeando livremente, ultrapassando tempestades ou, simplesmente, rodopiando ao vento, sente-se livre e com ideias maravilhosas, conjugando em si o resultado de todas as impossibilidades. E a magia do auto-retrato revela-se, então, quando “toca” o Universo [Luís Serpa, Novembro 2012].