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Exposição a decorrer até 2014-5-13

Ilda David

Azul de perdição

Uma virtude essencial do romance é a capacidade de desencadear imagens vivas na mente do
leitor. Estimulada, anima visualmente as acções narradas, concebe personagens, paisagens, ambientes,
casas a partir das descrições do escritor. Quando chamadas a ilustrar certa obra ficcional,
as artes da visão (da pintura ao cinema) correm o risco de se afirmarem peremptórias: o espectador
de uma imaginação alheia, tendo já realizado na mente o seu imaginário pessoal, não raro se sente
inconformado. Ora, uma virtude notável das pinturas de Ilda David’ que registam uma sua leitura
de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, é serem uma imaginação activa que não pretende
substituir-se à vida imaginativa do leitor. […]
O leitor de Amor de Perdição sabe que é na visão e na imaginação que se centra toda a energia
sensual de Teresa e Simão. Sem o mínimo contacto físico, a paixão exaltada, obstinada, sumamente
infeliz, cuja fatalidade aponta a uma dimensão transcendente, é alimentada eroticamente afinal
pela vista, e depois, à medida que os amorosos são forçadamente afastados, tão só pela imaginação.
A pintura exprime em brancos fantasmáticos o desejo de corpos que nunca conhecerão a sua carnalidade,
o sentimento tão poderoso de dois seres que, na sua idealização amorosa, quanto mais se
distanciam fisicamente mais espiritualmente se coligam. A artista ignora as mais óbvias cores
negro-rubras camilianas, porventura literais para esta história de amor, violência e morte que o escritor
traçou com a intensidade da tragédia. Prefere unificar em ambientes de azul, a mais imaterial e
profunda das cores, aquela extraordinária veemência da paixão, conduzida, além da vontades dos
seres, sobretudo pelo próprio fado, até ao paroxismo do sofrimento e, por fim, à morte. […]
O azul que unifica esta série de pinturas, de acordo com o texto camiliano, desperta o desejo de
pureza e uma sede de sobrenatural. A profundidade, a gravidade do azul apelam à ideia de morte,
de repouso e redenção pela morte. Na última pintura deste acrílico muito diluído, o verde do repouso,
da pacificação terrena junta-se ao amarelo-ouro, ao azul e ao branco, na imagem redentora
que exprime o destacamento dos valores materiais deste mundo. Já Kandinski reconhecia no azul
movimentos em que o homem se distancia de si num desejo de infinito. Assim são os amorosos
que, perdidos, depois de arderem no fogo juvenil, ascendem pela morte a um sentimento sublimado
que já nenhuma lei terrena poderá contrariar.
Ao leitor da novela e observador destas pinturas, por experiência deleitosa de catarse, é dado
mergulhar neste infinito azul de perdição.

Jorge Vaz de Carvalho