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Exposição a decorrer até 2013-7-31

João Jacinto

Neve Derretida

...de um curso de pintura


Como folhas soltas de algumas lições de um curso de pintura. Percebemos a matéria física que forma estas imagens: a tinta, a cinza, a poeira, alguma gravilha miúda são em si mesmas matéria (assunto) dessas imagens. Forma e conteúdo, trabalhados sem intervalo conceptual nem espacial. O conjunto depende ainda de outros pares: volume e textura, figura e cor, história e momento.

Como uma viagem por paisagens suburbanas. Guardamos polaroids aleatórios que nos obrigamos a sobrepor aos postais de museu; isso orienta-nos como pontos de um grande mapa, absorvendo o efémero no erudito. Cada momento se confunde com uma totalidade passada e futura; assim, integra redes de relações sempre em reconstituição e dá a dignidade da história ao que pode apenas ser superficial.

Modalidades de pintura da Natureza: paisagem, construída e não-construída e naturezamorta. As lareiras ardem alinhadas no espaço perspectivado, são escultura e arquitectura antes e depois de serem pintura; e tornam-se tema de pintura (e pintura) não porque haja uma longa iconografia de infernos mas porque uma razão incompreensível levou João Jacinto a pensar no rigor obsessivo, na delicadeza de realização, na minúcia de composição das pinturas de Agnes Martin ao ver a deselegância dessas lareiras kitsch à beira das estradas.

As árvores, que são sempre as mesmas. Ou seja, a árvore que é sempre a mesma, foi encontrada numa viagem e passou a ser usada à exaustão como Ideia de/para pintura(s). Um pinheiro, como Cézanne pintou o pinheiro de todos os pinheiros. A árvore inclina-se pesada, não tanto da matéria que a faz pintura, um rasto espesso, um tropeço de tintas rugosas, mas pesada de si mesma, de ser árvore e de ser história da pintura. Também as flores é sempre a mesma flor.

E as pinturas das pedras são pinturas de casas e as das casas são esculturas. Ou, tudo ao revés: até podermos chegar de novo à pintura.

O artista excluiu desta selecção os auto-retratos. Se os pudéssemos ver perceberíamos melhor como o projecto de João Jacinto não tem exterior. Ainda assim, isso já se percebe nos padrões abstractos que ele escassamente aqui nos mostra mas que ocupam a parte mais continuada do seu trabalho. Podendo apenas recordar aqueles seus auto-retratos temos a memória de alguém que trabalha a sua imagem do mesmo modo que todas as imagens que toca (vê/representa): em abismo. É Navio de espelhos e é Malström. É vórtice mas também vulcão: tudo absorve em velocidade até ao seu âmago e tritura e expele em lava pesada. É receptor e emissor: tudo reflecte multiplicando e tudo despede pelo ar em estilhaços.


João Pinharanda | Lisboa, 10 Maio 2013