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Exposição a decorrer até 2015-4-13

Jorge Santos

Casa de Vidro

FLORILÉGIO OU A ESTAÇÃO DAS FLORES
A partir de um jogo de infinitas variações sobre imagens da natureza vegetal a obra de
Jorge Santos trabalha, de um modo intenso, o próprio sentido do mundo natural, ou
melhor, da nossa relação com ele. O modo como este discurso não apenas se situa — pelo
estatuto artístico que assume — numa dimensão de artificialidade como acentua essa
artificialidade é essencial ao seu entendimento.
Jorge Santos confere às suas imagens um destino cenográfico e totalizador: porque
trabalha fazendo coincidir a escala das imagens com a escala real dos modelos (ou as
aproxima ao máximo dessa escala); porque reproduz de modo directo (por decalque e
projecção) as formas escolhidas no mundo real; porque nos leva a estabelecer uma
relação de envolvimento espacial com essas formas. Assim, folhas e ramos de árvores, os
reflexos dessas folhas e desses ramos, as superfícies irregulares criadas pelas sombras
desses elementos vegetais nas poças de água e nos muros e paredes onde se reflectem ou
o seu recorte nos céus acabam por se relacionar connosco num espaço comum: o nosso
corpo real encontra o corpo hiper-real das pinturas e instalações na sala de exposições ou
na sala doméstica onde se exibem.
Essa dimensão envolvente acentua-se se constatarmos que as obras de Jorge Santos não
resultam tanto como «coisas reproduzidas» mas como coisas que, capturadas numa
dimensão (d’après nature) são depois transpostas para outra dimensão (artística) onde se
tornam, elas mesmas, imagens devoradoras. De facto, ao expandi-las nos espaços que
habitamos (em grandes telas, delicadas instalações e/ou projecções), Jorge Santos cria
uma cenografia destinada, também, a capturar-nos. Esta estratégia não funciona como
simples trompe l’oeil, que nos ilude e surpreende visualmente, antes faz parte de uma
estratégia de continuada sedução através do prazer-de-ver e de estar-no-que-se-vê. Assim
cria cenários de uma possível joie de vivre; mas a sucessiva apresentação fragmentar a
que estão sujeitas (sempre como enquadramentos de uma realidade maior e impossível de
abranger), releva-lhes um inevitável destino de melancolia e incompletude.
A VIDA NOS BOSQUES
Vemos na obra de Jorge Santos a expressão de uma vontade que se revela como
simulação de uma vontade de sistematizar a natureza vegetal. Essa atitude programática
coloca-o como habitante e construtor de um universo labiríntico de coleccionador. Jorge
Santos apresenta-se assim como um coleccionador de folhas e flores (um construtor de
herbários ou florilégios) ou, em sentido figurado, alguém que selecciona uma antologia
que pode ser literária mas que, aqui, se torna de pura visualidade.