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Exposição a decorrer até 2013-1-24

Maria Capelo

Os dias como claras manhãs, as noites de trevas espessas

Entre a sombra e um laivo de luz dourada
Sara Antónia Matos


Segundo Maria Capelo, “Desenhar começa como uma expectativa: uma esperança de desvendar um problema." Esta afirmação pode abrir o sentido e a natureza do trabalho apresentado na exposição "Os Dias como Claras Manhãs, As Noites de Trevas Espessas", na galeria Giefarte, em Lisboa. Para compreender este trabalho, é necessário acrescentar ainda que, para a artista, o problema lançado pelo acto de desenhar acaba por nunca se resolver. Desenhar envolve uma tarefa contínua de repetição e falha.
Antes de se desvendar o dilema para que a artista aponta, é imprescindível observar os desenhos, vaguear pelos espaços que abrem. A série é composta por representações de corpos vegetais, pinheiros, oliveiras, troncos, galhos, que entre si vão criando tramas enigmáticas, abrindo e fechando clareiras. Por vezes, a cor dourada envolve as estruturas vegetais cobrindo-as parcial ou totalmente, outras vezes, irrompe entre as mesmas deixando a descoberto os seus vultos. Embora quimicamente o dourado potencie o reflexo e simbolicamente esteja associado à cintilação, nestas obras, ele é mais do que uma alusão directa à luz. O modo como a cor é aplicada sobre o suporte faz dela uma velatura que simultaneamente cobre e destapa o que está por baixo. De facto, as manchas douradas não apresentam contornos ou formas definidas, antes emergem difusas como um manto de nevoeiro que avança e recua. Deste modo, pode considerar-se que o desenho trabalha a dois níveis que se intercalam mutuamente: o plano de retaguarda composto pelas representações vegetais a tinta-da-china e um plano de velatura com um grau variável de opacidade. Os dois níveis geram um complexo (in)definido entre o claro e o escuro, o denso, o semi-denso e o permeável, suscitando no olhar uma espécie de avidez do ver. Trata-se de ver para além do imediato e da superfície do primeiro plano, de modo a saciar o desejo. Este alimenta-se precisamente da inacessibilidade.
Artística e literariamente, a floresta e os cenários de vegetação selvagem estão pejados de romantismo, temores e fantasias, podendo até dizer-se que tecem um locus para o erotismo do olhar. O mesmo acontece com as composições d´Os Dias como Claras Manhãs, As Noites de Trevas Espessas de Maria Capelo, em face das quais, o olho não consegue deixar de inspeccionar. Não é que a representação mostre explicitamente figuras voluptuosas ou carnais. O erotismo que suscita processa-se ao nível fenomenológico, no modo como provoca a percepção e o desejo do olhar, fazendo-nos procurar ver sempre mais, para além daquilo que nos está acessível. Cada composição roga um exercício ao observador, levando-o a proceder a uma inspecção de campo, à procura do melhor lugar para nele entrar. Repare-se que, dentro da série, alguns enquadramentos fornecem vistas amplas, outros vistas de pormenor, fazendo-nos operar movimentos de aproximação e afastamento, tal como uma máquina fotográfica ou de filmar ao penetrar os lugares captados, com mais ou menos incisão.
Assim, os diferentes pontos de vista traduzem os movimentos de ida e volta, entrada e saída do espectador no campo e na linguagem do desenho. Em frente deles, o olhar pesquisa,
ciranda sobre o plano de representação até vislumbrar a clareira adequada para penetrar. Aproxima, foca, averigua, recua, porventura deixa de ver. Durante este processo, pode considerar-se que o observador está já dentro do plano de representação, atravessando a sua espessura. O suporte não é alheio a este exercício sensual. Deixando passar a luz, sendo dotado de uma suavidade similar à da pele, o papel macio estimula o sentido háptico da visão, transformando os olhos num órgão táctil. Os papéis pedem o toque dos dedos, mas os dedos estão impedidos de lhes chegar. Por isso, o olhar vem em socorro daqueles e reveste-se da memória táctil para nos auxiliar a sentir as texturas, reais e representadas.
Acresce que no trabalho de Maria Capelo – pintura e desenho – não há vestígio de presença humana, o que faz do espectador o seu único habitante, testemunho isolado do acontecimento que experimenta. Os desenhos são o lugar de um enredo que não vemos, mas desejamos, que tememos mas não deixamos de procurar. Essa é a natureza insaciável do desejo e o tempo da obra de arte, que envolve em simultâneo: expectativa, repetição e falha. Como se articulam estas três instâncias?
O desenho é uma promessa de futuro na medida em que ambiciona resolver um problema. Todavia, sabemos pela mão da artista, que ele é da ordem da repetição e redunda numa falha. Mas a sua natureza é mesmo essa, a de uma impossibilidade. Se ele é da ordem de uma expectativa que nunca se cumpre, só pode existir enquanto pergunta, enquanto desejo, e portanto só pode sustentar-se durante o tempo em que a pergunta durar. Até onde consigo ver? Até quando este desenho me consegue prender? Este é o problema fundador da obra de arte e uma vez apanhados na sua trama, a obra consome-nos e nós a ela, a obra consuma-se e nós com ela.
O título “Os Dias como Claras Manhãs, As Noites de Trevas Espessas" da exposição de Maria Capelo aponta exactamente para este enigma envolvido na obra de arte. Os seus desenhos, arrastam-nos para uma zona sombria, que se fecha e simultaneamente se desvela com a mesma brevidade de um laivo de luz dourada.
2013