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Exposição a decorrer até 2015-11-05

Maria Pia Oliveira

Caminhando pelos céus

Caminhando pelos Céus

Sobre esse imenso quadro de uma noite cerúlea, o devaneio
matemático escreveu épuras. São todas falsas, deliciosamente
falsas, essas constelações. Unem, numa mesma figura, astros
totalmente estranhos. Entre pontos reais, entre estrelas isoladas
qual diamantes solitários, o sonho constelante traça linhas
imaginárias.
Bachelard (1990). O Ar e os Sonhos.
Ensaio sobre a imaginação do movimento, p. 179

A contemplação do Cosmos origina uma das maiores viagens do espírito, provoca os
sentimentos mais profundos do ser; reduz-nos à nossa insignificância; transporta-nos ao
estremecimento, à grandeza, ao infinito, ao sublime, mas também à anulação do ego. Unifica
o ser humano com o cosmos, o Uno.
O mistério do universo começa com o silêncio, a plenitude, o sentimento de união
com o Todo. Todavia, nem sempre se consegue escutar o silêncio, nem captar o mistério, nem
mesmo percepcionar o detalhe de todas as “coisas". As coisas-em-si
revelam-se por pormenores microscópicos e pela grande extensão do Universo, e o ser humano poderá
contemplá-las e experimentá-las através da percepção e da experiência da união. Mas,
simultaneamente, toma consciência do seu interior, o “eu", e do “inconsciente colectivo"
junguiano [série de desenhos: Lamas, 2014]. A experiência de Unidade produz uma transformação no ser humano, a união com o Todo, tal como afirma Svâmi Prajnânpad: “c’est
s’éprouver un avec tout".
O caminho da ascensão aos céus é um devaneio solitário, uma viagem sem regresso,
ímpar, na medida em que nos transforma. Embarcamos numa viagem cósmica e tornamo-nos
exploradores das multidimensões-matemáticas. Este caminho segue numa linha curva e
orgânica, tal como o Espaço: orgânico, fluido e em constante transmutação. Num movimento
dinâmico, retorna ao mito dos céus antigos cujo significado continua oculto para o comum
dos mortais.
As imagens arquétipas do Cosmos da Artista Plástica Maria Pia Oliveira desenham os
múltiplos significados desde a conceptualidade científica do Universo à tradição mítica
ancestral, de modo a reescrever uma nova linguagem visual contemporânea.
Cada desenho, do branco ao negro, cria novas visões do cosmos, arquétipos
simbólicos do Universo. Caminhos e viagens que o ser humano poderá percorrer através de
um olhar científico do microcosmos ao macrocosmos, começam com as partículas quânticas
[Dança das Partículas e Danças das esferas] e a Célula até às constelações, às estrelas e aos
buracos negros [Estrela Esplenderosa e Blake Hole]. Numa unidade cósmica análoga à
linguagem oriental, a artista cria seres cosmogónicos de transmutação [Evni-Ente voador não
identificado], redesenha o mundo mítico biomórfico [Partículas em Flor], e evoca o fogo pela
dicotomia mitológica entre deuses e humanidade, bem e mal, morte e renascimento [Agni
Cure, Agni Spheres e Liberación], que os transforma em flores dos céus [Seres em flor].
Porventura, os desenhos são um caminho de uma chama viva dotada de todo o poder
da transformação do “viajante cósmico", em que o fogo consome usualmente a vida
quotidiana e pouco se interessa pelas esferas colossais dos mistérios humanos.
No trabalho de Maria Pia Oliveira, o fogo aparece-nos subtilmente na noite e na
escuridão através das formas, das linhas e das cores. Representa a purificação, a libertação do corpo e da matéria. A queda antes dela; a transmutação da energia que consome as impurezas
através das esferas dinâmicas ardentes. Também, a Fénix, o renascer das cinzas para um novo
ser, a morte e a ressurreição, o símbolo da imortalidade, da regeneração e da alquimia. Em
Ovídio, na obra Metamorfoses, fénix é “a ave que se regenera e se produz a si mesma (…) do
seu corpo paterno renasce um pequeno fénix, diz-se, destinado a viver o mesmo número de
anos."9
. Porém, o fogo transmuta-se em Agni, o deus sagrado do fogo e do sacrifício de Rig
Veda, o mediador entre deuses e humanidade, bem e mal, o deus purificador [Agni Days,
Agni Spheres e Agni Cure]. Surge uma nova vida, regenerada, e começa uma outra viagem, um
outro ciclo, um outro nível do céu, o cosmo
.
O encarnado, o laranja, o verde e o dourado são as cores do Céu. São cores do Jardim
do Éden, as pedras preciosas, os rubis, o topázio, o jade e o ouro puro. Na literatura, o Jardim
do Éden é frequentemente descrito com dourado, o ouro, e adornado com pedras preciosas.
Tal como afirma o escritor Aldous Huxley, no seu livro Céu e Inferno: “as pedras preciosas são
preciosas por manterem uma ligeira semelhança com as maravilhas refulgentes vistas pelo
olho interno do visionário." O escritor britânico leva-nos a essa viagem ao mundo visionário
entre o Céu e o Inferno, que representam a simbologia espiritual de transformação.
Maria Pia Oliveira cria também imagens visionárias do céu, percorrendo os vários
caminhos para a libertação, como se fossem múltiplas “portas da percepção", uma espécie
de viagem, que o espectador inevitavelmente tem de cumprir para atingir a transformação do
espírito para o estado puro, a transcendência. Embora possamos lembrar a dualidade entre
Céu e Inferno como legado cultural ocidental, entre a gravidade do peso da existência, a
vertigem, a queda e a morte, e a leveza dos céus e das estrelas, a luz radiante e a iluminação
da chama ardente, só podemos contemplá-los efectivamente quando o espectador conhece
em pleno a obra da artista plástica. [Gravidade, 2010]
Neste sentido, lembraremos outros artistas e escritores que “poetizaram" os vários
caminhos para os céus. Na cultura ocidental, Céu e Inferno continua a ser o maior legado
desta temática, como podemos observar em Dante, William Blake, Aldous Huxley e, mesmo, em Wassily Kandinsky, a título de exemplo. Segundo os três primeiros criadores, o caminho
espiritual é delineado pela descoberta das vicissitudes obscuras e penosas da existência. Em
Kandinsky, a procura visa o estado puro do espírito. Por isso, considerava que o artista seria
um “sacerdote da “beleza""

, e tornar leve o pesado. Na sua pintura, o caminho de
espiritualidade era uma revelação que subtilmente aglutinara as diversas linguagens culturais.
A viagem entre o Céu e o Inferno era, também, um caminho para o Novo Mundo e uma visão
multidimensional.
Seguindo esta perspectiva, Céu e Inferno representam a viagem espiritual do ser
humano, que irremidiavelmente começa com a vertigem, a queda, e, mesmo, a morte. A
queda é o princípio da viagem. A morte, o início da transformação. A escuridão é o mistério, o
lado obscuro do ser humano, o inconsciente. Por outro lado, nas sociedades nativas ou tribais,
a morte e a escuridão são os símbolos do princípio activo da transformação, de um novo ciclo,
de uma nova vida, de mudança. Portanto, os presentes desenhos são imagens míticas, que
fundem o oriente com o ocidente, o tribal com o erudito ocidental, o pensamento nãoocidental
com o cristão. A artista unifica branco e negro, cor e não-cor; e, na escultura, o peso
transforma-se em dourado e na leveza da luz, transpondo-nos, assim, para outros significados:
os da Casa Esplenderosa.
Nesta exposição da artista Maria Pia Oliveira, os desenhos conduzem o espectador,
quais sinais para a transformação. Estas “sinalizações" são dadas pelas formas fluidas e
quânticas, o microcosmos orgânico, as pequenas particulas dinâmicas, as imagens arquétipas,
o ser que se metamorfoseia com o fogo em fénix e em flores.
As flores de Maria Pia Oliveira fazem parte das imagens visionárias míticas que nos
conduzem aos céus. Surgem na escuridão do Universo, e rodopiam em detalhes delineados
com pormenores minuciosamente desenhados, que relembram a tradição oriental. São novas
linguagens visuais que produzem a auto-transformação, através das cores do fogo e das
“pedras preciosas".
As flores são seres, entidades, energia [Seres em flor]. No budismo, aparece-nos a flor
de lótus, como símbolo da transcendência do espírito, puro e imaculado. Esta flor eclode e
flutua à superfície, com o caule longo, esguio e firme, que une as raízes à lama do leito das
águas turvas. É uma metáfora do caminho da revelação. Lótus é pureza, sobriedade e rectidão.
Também, simbologia da meditação, o estado mais elevado do ser, o “ponto mais elevado"
onde são abolidos o espaço e o tempo [The perfect point]. Surge, assim, a última série de
desenhos, que representam um novo sistema do cosmos: o caminho [Queda nos Céus] para o
estado do espírito mais elevado do ser. Funde o ser com o cosmos através da simbologia do
imortal, deus destruidor da mitologia Tibetana [Mahakala], o outro aspecto do deus Shiva,
também designado por “Great Black One".
A artista comunica e visiona o Universo, numa rede de linhas densas, fluidas e
dinâmicas, que convergem em pontos de luz, brilham na escuridão [Blake Hole e Estrela
Esplendorosa] e, por sua vez, expandem em malhas curvas e orgânicas, transmutando, assim,
em outras formas topológicas, onde a anulação do ego e a abolição do espaço e do tempo são
atingidos. Surge o kosmos, o Todo [O Todo, belo e ordenado].

Joana Consiglieri
Lisboa, Setembro de 2015