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Exposição a decorrer até 2012-12-31

Miguel Teles Gama

Vuoto

A pintura sempre contou histórias: de amores e mortes, de vaidades e humilhações, de vitórias e derrotas, de medos e bravatas, de poder e (menos) dos desvalidos. As histórias da pintura medem-se com as histórias da literatura e do cinema, mais do cinema porque também são imagens, mas incluem muitas vezes palavras, palavras como imagens e imagens que pertenceram a muitos outros lugares.
Miguel Telles da Gama é, sempre foi, um contador de histórias via imagens (e também por palavras, mas esse é outro lado da mesma história) que passou de um percurso no qual a profusão de narrativas preenchia a página e a tela onde tudo cabia, desde o grande mundo ao pequeno mundo do passeio-do-cão-pelo-bairro-e-boa-noite-às-vizinhas, a um universo feito de cortes e fragmentos.
Parece-me que essa passagem é também uma mudança de um mundo literário para um mundo cinematográfico, feito de foras-de-campo que fundamentam os fragmentos que vemos, construídos a partir de uma metodologia de corte e montagem, às vezes de planos-sequência.
A sua pintura (e os desenhos) vieram, também, a sofisticar-se neste caminho da narrativa para os fragmentos de histórias. O alter ego cinematográfico impôs uma tipologia de imagem pictórica que passou pelo uso de um preto e branco que remetia diretamente para a sua cinefilia e o processo de edição das imagens foi-se impondo como o assunto recalcado. A profusão de referências cinematográficas que usa misturam-se com imagens de origens díspares, o que só uma visita ao seu ateliê pode fazer compreender: o chão juncado de imagens de livros, ilustrações médicas, técnicas, geográficas, cinéfilas, eróticas, didáticas, irónicas, dramáticas, documentais, antigas, modernas, obsoletas ou obscenas. Às vezes são imagens que pertencem a um desses universos mas poderiam pertencer a outro, como se a sua compulsão de colecionador fosse dirigida por uma pulsão de mal-entendido – imagens didáticas que parecem eróticas que parecem mecânicas, que parecem óbvias.
Mas não são.
Ao longo dos últimos anos o seu trabalho como pintor foi sendo atravessado por uma outra tipologia de trabalho que, não se situando no mesmo eixo do percurso anterior, acrescenta-lhe o jogo como processo.
A obra que agora apresenta é um enorme puzzle construído ao longo de um ano, a partir de uma metodologia absolutamente rigorosa: o artista escolhe imagens que lhe interessam, para as inscrever (retirar seria mais rigoroso) num suporte sempre da mesma dimensão
usando o mesmo processo. Não adianta perguntar porque é que aquelas lhe interessam e outras não: umas funcionam dentro do sistema que criou e outras não.
Funcionar é a palavra chave, porque o caráter narrativo que as suas pinturas fragmentares continuavam a possuir é aqui preterido em função de um léxico que opera como um meccano. Essa é a palavra-chave: um meccano que se pode associar de infindáveis maneiras. Demasiado depressa. Vamos por pontos. Em primeiro lugar, todas as imagens são construídas tecnicamente da mesma forma: são desenhos recortados sobre uma côr que é pintada e fornecida por uma gelatina. Em segundo lugar, os desenhos são de entidades da proveniência mais diversa, algumas reconhecíveis, a maior parte totalmente opaca para o espectador. Por último, conjugam-se numa arte combinatória que é essencialmente motivada por critérios estéticos (o que não quer dizer formais), portanto subjetivos – inexplicáveis no verdadeiro sentido do termo, do que não admite explicação. Mas é possível através da demonstração, da colocação de cada imagem lado a lado, para cima e para baixo, numa rede de relações que constroem um grande painel a partir de uma paleta limitada. Claro que a ordem destes fragmentos pode ser alterada pelo artista, que pode alterar tudo, menos os eixos metodológicos que definiu à priori. Trata-se, portanto, de um projeto serial, no sentido em que cada elemento confere a fundamentação necessária e suficiente para a existência do que lhe faz vizinhança e vice-versa (ou seja, cada elemento se fundamenta a partir de um outro), numa cadeia que necessita de ser testada na sua completude e complexidade.
A narrativa foi, portanto, substituída pelo jogo e este constrói-se a si mesmo e redefine-se pelo próprio jogar.
E, portanto, o contador de histórias decidiu tornar-se num narrador analítico, testando a capacidade dos sintagmas visuais que produz se verterem em possibilidades de recombinação, transformando o espectador num jogador cego.
Na parede que se preencheu com a regularidade das imagens que só ele sabe de onde vieram, há um pragmatismo falso, porque deste jogo ninguém conhece as regras, nem o fim.
O seu pequeno mundo tornou-se mais irónico: nem o cão, nem as vizinhas, nem o filme nem o romance o habitam. Só a forma cega de uma entidade dúbia, sedutoramente embrulhada na cor sintética vai repetindo o seu mantra elétrico: faites vos jeux.
Delfim Sardo
2012