,

Exposição a decorrer até 2014-3-11

Vicente Jorge Silva

varanda sobre o mar

Varanda sobre o mar

O meu trisavô, o meu bisavô, o meu avô, o meu pai e o meu tio foram fotógrafos e o estúdio
da minha família, a Fotografia Vicente, era considerado, até à sua transformação em museu, a
mais antiga casa do género criada em Portugal, aí por meados do século XIX. Mais
precisamente, esse estúdio surgiu numa ilha, a Madeira, onde se ia desenhando um mapa de
convivências cosmopolitas, apesar das distâncias de então, devido às rotas marítimas que se
cruzavam no Funchal entre a Europa, a África e as Américas.
Fui nado e criado numa casa contígua ao estúdio fotográfico familiar e a minha infância foi
intensamente impregnada pela atmosfera e o imaginário que se desprendiam desse espaço que
rapidamente se tornou para mim um lugar mágico. O mundo das imagens, os artefactos
fotográficos, a passagem do negativo ao positivo, as ampliações, a ambiência envolvente do
’atelier’ – como todos o chamávamos – marcaram não só esses anos da minha vida mas
deixaram também um rasto que se prolongou até hoje, embora eu tivesse sido o primeiro
Vicente que não abraçou a profissão de fotógrafo.
Em contrapartida, terá sido aí que emergiu a minha paixão pelo cinema, ao projectar aquele
espaço como o centro de acção de um filme. Uma paixão largamente frustrada, diga-se de
passagem, mas preenchida por outra que ocupou o essencial da minha vida, o jornalismo.
Curiosamente, o meu filho mais velho, Miguel, conjugou o fotógrafo que não fui com o
jornalista que acabei por ser: é repórter fotográfico.

Fiz muitas fotografias, claro, durante a adolescência e a idade adulta, sob pretextos diversos
mas nunca como actividade que incentivasse uma ocupação profissional ou uma dedicação mais
ou menos apaixonada. Até que, depois de a minha mulher me ter oferecido uma câmara digital
que o meu filho Miguel lhe sugerira, me dei conta, há cerca de dois anos, de que a paisagem que
eu observava da varanda da minha casa no Funchal me interpelava com as suas mutações
constantes de luz e cor ou com formas e situações inesperadas.
Fui-me rendendo a esse sortilégio até ele se tornar obsessivo, deixando-me influenciar também
por um álbum de aguarelas de Turner – o pintor dos pintores para mim, desde os tempos da
minha adolescência londrina e frequentador fiel da Tate Gallery. Não me considerava
propriamente fotógrafo mas um humilde captador das imagens que vinham ao meu encontro,
tantas vezes por difusos segundos, e se diluíam logo em seguida noutras imagens, num
movimento perpétuo de surpresas.
Foram esses os meus ’instantes decisivos’, quando o mar, o céu, as nuvens, os barcos e as Ilhas
Desertas no horizonte da minha varanda se sucediam e transfiguravam perante os meus olhos
desde a madrugada até ao crepúsculo – e a noite encerrava a paisagem no seu mistério.

Vicente Jorge Silva
Fevereiro de 2014


Esta exposição não teria sido possível sem a colaboração amiga e cúmplice de Manuel Costa
Cabral e Jorge Martins, que me estimularam e ajudaram com os seus conselhos e opiniões na
selecção das imagens e na montagem final. Mas devo à generosidade de Graça Carmona e Costa
o privilégio de poder ensaiar na sua galeria os meus primeiros e já tardios passos como
fotógrafo.