JORGE FEIJÃO

Desenho e pintura sobre papel    

Este grupo de trabalhos sobre papel de Jorge Feijão, trazidos à Giefarte no Outono de 2019, cobre um arco de tempo que vai de 2001 ao ano em curso. A sua reunião pode considerar-se uma pequena antológica, que se inicia com quatro estudos de 2001 [tinta-da-china e esferográfica, 21 × 29,7 cm], presentes na sua primeira exposição individual, na Sala do Veado, em 2004. Um desses desenhos – aquele que surge carregado de negros, como se resultasse de uma linha direita que se curva e recurva, de uma pele que se retrai e enruga para se transformar num demorado processo de abismo e de queda na fundura da sombra dos seus próprios limites – traz já consigo os sinais que possibilitam o distorcer de imaginadas formas de torsos que encontramos em Monos [2009-2010, barra de óleo e acrílico sobre papel, com vestígios de pegadas, 70 × 100 cm].

A torção, que a cor negra contém em muitos dos desenhos de Jorge Feijão, reflecte uma imagem física que se afasta e que deixou no papel o extremo ruído do seu silêncio. Uma espécie de vista e ouvido que nesse negrume ou na poalha de um cinzento [presente em dois trabalhos da série Metamorfoses, 2012] permanecem a ferir. Na acumulação de destruídas figuras e de imagens tácteis, na confusão do que possa ser o que está fora e o que possa estar dentro de uma forma isolada, de uma porção de corpo físico. Embora nunca explicitado para além da amalgamada cor negra que se oferece num esmagado sujo que traduz volume. Um contorcido e nodulado negro é o desenho. Que, todavia, se quer limpo da afectação de pronome possessivo [o meu, a minha, o teu] ou de artigo [o, a, um, uma]. Sujo: a linha que recurva, a tinta que deformou, a cor que transformou, o paciente espaço que se foi sobrepondo.

O desenho não é uma cena no sentido de teatro nem um risco no sentido arquitectural. É, antes, a transformação das características geométricas e da fisicidade de um corpo, roubadas a uma porção de espaço. Preserva-as o papel [suporte que as recebe], enquanto possibilidade extrema de resposta do ver, restituidora e restaurativa de sucessivos instantes. Deixemo-nos prender entre a relação existente nos seis desenhos de 2017 [carvão e grafite, 50 × 60 cm]. Percorre-os uma simultaneidade, que é uma classe de tempo. Que tem consigo uma graduação tocada pelo que seja intemporal, por um tempo pleno, por um tempo redimido. Atravessou estes seis desenhos, como um processo demorado de feitura. Mancha e risco estão a mostrar-nos uma vida desenhada entre o emergir de um tempo aparente – histórico-existencial – e o tempo verdadeiro que se manifesta com o carácter de uma epifania e que se dispõe a enviar-nos para o horizonte de toda uma obra. Porque experimentar visualmente um desenho e partilhar as graduações da sua finitude carece de um entusiasmo que pede entrega ao jogo da arte. Ao seu fazer e rasurar, para em instantes posteriores surgir ressurgimento. Há um esquecer-se de si mesmo, um estar fora de si, naquele que se debruça sobre um desenho e que o percorre nas suas manchas e traços, nas suas cores. Kierkegaard refere uma teologia dialéctica ao agir daquele que cria e que se expande, no momento do ver, àquele que contempla a obra de arte. Não creio que seja salvífico esse instante a que o observador se entrega, creio apenas que se poderá sentir arrastado para a subjectividade da obra e de certo modo possuído pelo que contempla.

Jorge Feijão, em dado momento do seu trabalho, desenvolveu o sentido do entusiasmo; de um estar fora de si, a partir da fuga a um entendimento do racional, ao modo como Platão dele nos fala no Fedro. Na extensa série Metamorfoses [foram seleccionados oito trabalhos], muitos dos desenhos referem o mito de Eco e Narciso. A ninfa Eco contempla Narciso. Este, por sua vez, perde-se no reflexo da sua imagem que se espelha nas águas de um lago. Ambos representam a negação de estar em si mesmos.            

Há nos dois, na paixão da ninfa pelo jovem e na obsessão deste pelo reflexo do seu corpo nas águas, um auto-esquecimento, um desvario, uma procura de ser em coincidência, de ser ao mesmo tempo. Eis o desenho em tons de cinza, de Metamorfoses, a reflectir-se sobre o desenho com o tratamento das mesmas tonalidades. Ou o desenho em papel de cenário [2009-2019, colagens, tinta-da-china, carvão, acrílico e spray, 200 × 150 cm], onde um traço amarelo dobra a sua legitimação de existência e a sua simultaneidade de um «estou aqui», ao recurvar-se sobre um risco verde, que por sua vez confunde a sua presença na representação plena de uma linha rubra. Na fundura que os tons negros criam sobre o coalhado branco do papel, abre-se uma oval. O seu efeito sobre o espectador assemelha-se a um sem-fim. Sobre ele, uma pequena porção de tinta negra, em colagem, debruça-se. É ainda a imagem de Narciso – essa cor negra –, que se inclina, agora, em abismo, não sobre a água de uma fonte ou de um charco, mas sobre as brancas lavas de um vulcão. Mais do que um desenho, temos presente o espírito de uma pintura, onde se operaram ressonâncias de destino e desolação e onde a técnica e o saber do artista criou um estado de ânimo carregado de interioridade e, quem sabe, trespassado por compaixão e temor.

O carregar negro da tinta-da-china – e também do carvão – em grande parte da obra de Feijão é um descer arcaico nas funções múltiplas da figuração. Estiveram presentes traços e riscos elementares, que trabalhos mais recentes evocam e submergem num puzzle de colagem e cor [Auto-retrato, 2015-2018, 189 × 148,5 cm, tinta plástica, carvão e cola de madeira], que se recusam a desaparecer, como ocorre na pisada mancha negra, que em macerada camada sobre camada desenha dentro de si mesma personagens singulares e colectivas. Quem sabe, se para o artista, a pré-consciência de temível/amável monstro não corresponde a uma temporização minimal do dizível, que se desenvolve na dinâmica de uma demora e de uma sucessão. Trespassamento e graduação, eis o que tem lugar no objecto Mesa [2006-2019, desenhos sobre laje de mármore cobertos de barbotina, sobre mesa e sacos de lixo do atelier, 80 × 120 × 80 cm].

Mesa chega ao espaço da galeria como um objecto ferido, arrancado ao seu contexto originário. Guarda, no seu poder de representação, desenhos e sacos de lixo. Nestes encerraram-se restos, aparas, fragmentos, que são processo de se descobrir o sentido exacto dos desenhos que a cercam. A Mesa, com o brilho baço de todo o seu lixo, transportou consigo a realidade enraizada do seu chão, da criatividade de que foi assistida. Não creio que tenha perdido o mínimo cotão, um toco de lápis, um frasco sem tinta. Está, como se vivesse no seu contexto originário. Reconstrói o mundo a que pertence e espelha a «intenção» do artista que a criou. Está, como alguma coisa que tivesse sido salva de um fogo e que ainda conserva as marcas do incêndio.

Pintura no desenho; desenho dentro do acto de pintar. Talvez seja assim o modo de ser da plasticidade que encontramos nos dois Auto-retrato. Tudo é neles um avanço e um recuo: memória e esquecimento. Coisas, intenções, sentimentos, porções de tempo e de espaço experimentadas, vividas ou somente intenso objecto de desejo. Justapõem-se nas ordenadas e coladas folhas, desenhos de mediação para um rosto, para um corpo, para um retrato. A cor ora liberta um traço botânico ou uma arquitectura, ora escamoteia com um borrão intenso, de amargura e de ironia, a primazia daquilo que está vivo e enlaça, numa expressiva e vinculada revelação unívoca, uma representatio universi. Extensão indissolúvel da imagem do retratado: aquela que ficou prisioneira num espelho quebrado e aquela que tremeluziu sobre a água de um pântano. Um «olho» surge, em fuga, como um isolado desenho. Em recusa, não aceitou a dominação da cola de madeira. Ele vê, fora do quadro, com a maior claridade, até que ponto um retrato quer ser entendido como retrato.

Os «auto-retratos», na multiplicidade de desenhos que agregam, trazem consigo um jogo engenhoso. Na sua totalidade representam uma imagem do artista. Mas cada um desses desenhos compreende uma porção de pequenos motivos, de brevidade visual, de lampejos de cor, que em tempo correspondem a breves segundos. Guarda-se nestas colagens um mosaico de micromotivos e a sua sucessão de espaços monadais e coloridos rearranja-se, como num caleidoscópio. O efeito é o de uma repetição escondida e idealizada de permutações, de mínimas supressões obscurecidas pela cor.  

Jorge Feijão desenha uma pintura de infinda subtilidade. E os trabalhos que esta pequena exposição antológica reúne mostram uma desenvoltura e uma conseguida mediação do pensamento com a vida e com a arte de hoje.

João Miguel Fernandes Jorge